Há 30 anos, Francisco Souza, do povo indígena Apurinã, da Amazônia brasileira, tem trabalhado para criar soluções para proteção de florestas e povos que dela dependem. E há seis meses, ele é diretor executivo da Fundação Indígena, a mais nova unidade da família FSC. Com caráter operacional e estratégico, a FI servirá como ponte para a criação de alianças multisetoriais com foco em soluções criativas e duradouras para a gestão sustentável dos territórios indígenas em todo o mundo; ou seja, para cerca de um quarto da superfície do planeta.

“Nosso objetivo é, por meio da plataforma global do FSC, que reúne 1100 membros de mais de 90 países, representando interesses sociais, ambientais e econômicos, apoiar esforços de irmãos e irmãs indígenas a fim de aumentar o reconhecimento dos direitos dos nossos povos com proteção e uso sustentável de nossas florestas e territórios baseados nas nossas culturas e práticas tradicionais”, diz Souza. Segundo ele, os territórios indígenas precisam ser vistos como fornecedores de soluções inovadoras para desafios globais, como as mudanças climáticas e a exploração predatória dos recursos naturais. “Para conseguir isso, a Fundação Indígena quer unir força com sociedade civil, governos, empresas e entidades financeiras no apoio à luta e objetivos de autodeterminação dos povos Indígenas do Planeta”, afirma.

Entre os muitos serviços ambientais prestados pelas florestas dos povos indígenas para a sociedade estão a proteção dos estoques de carbono nos seus territórios, proteção da biodiversidade, a conservação do solo, a preservação dos ciclos da água e das chuvas e, consequentemente, a manutenção da produtividade agrícola.

O Instituto de Recursos Mundiais (WRI) estima que a proteção e a governança efetiva das terras indígenas podem gerar entre 520 e 1.160 bilhões de dólares em benefícios econômicos ao Brasil ao longo de 20 anos. “Atacar os povos indígenas é atacar os êxitos e a liderança ambiental do Brasil no mundo e, além de trazer prejuízos econômicos, pode aumentar, inclusive, o risco para o setor empresarial com a redução do acesso ao mercado internacional dos produtos brasileiros”, avalia Souza.

“O FSC sempre valorizou a importância das comunidades indígenas para a conservação das florestas”, diz Aline Tristão, diretora executiva do FSC Brasil. "Viabilizar formas alternativas de sustento, por meio do manejo responsável de produtos não madeireiros, permite que o modo de vida dessas populações, que naturalmente promovem a conservação ambiental, seja mantido”. E aqui no Brasil, onde os territórios indígenas sofrem grande pressão de grileiros, mineradores e madeireiros ilegais, isso torna-se ainda mais importante, reforçando a ligação deles com a terra e permitindo que eles se mantenham ali, sem a necessidade de migrar.

Munidos das melhores ferramentas e instrumentos, como a própria certificação FSC, o potencial de desenvolvimento econômico e social desses áreas é enorme.

Segundo Souza, a Fundação Indígena, ao trabalhar de forma independente e respeitando as diferentes culturas, práticas tradicionais e visão holística de diferente comunidades pode garantir a adoção do manejo florestal responsável para conservar as florestas para todos e para sempre.

Histórico

A Fundação Indígena foi criada em 2019 e tem sede no Panamá. Ela está vinculada estrategicamente e operacionalmente ao Comitê Permanente de Povos Indígenas, conhecido como PIPC, criado em 2013 para ajudar o FSC a cumprir seu objetivo de promover um manejo florestal viável, que preserva o meio ambiente e respeita os direitos dos povos indígenas. Agindo como uma plataforma indígena global, o PIPC é constituído por representantes indígenas de diferentes partes do mundo, representando cinco regiões do planeta.

A missão do PIPC é focar os interesses indígenas dentro do sistema FSC, salvaguardar seus direitos e promover o manejo florestal responsável por meio da inclusão e da promoção do conhecimento, da autoridade e das práticas tradicionais indígenas.

A Fundação Indígena nasceu para preencher um vazio de entidades globais lideradas por indígenas trabalhando em conjunto para empodeirar esse povo. O trabalho visa destravar sistemas políticos e de mercado para criar condições propícias para que os povos indígenas alcancem a autodeterminação de seus territórios por meio de fortalecimento das capacidades institucionais indígenas, de efetiva governança dos seus territórios, da melhoria de sua sustentabilidade financeira e econômica, e aumento na produção indígena certificada.