por Maria Fernanda Ribeiro
Fazer da venda da madeira um negócio rentável e sustentável para as comunidades e famílias que habitam a Floresta Amazônica parecia ser um sonho impossível pelos moradores da Floresta Nacional do Tapajós.
Cravada no Pará, estado que está no topo do ranking do desmatamento, uma das mais visitadas unidades de conservação do Brasil não só faz do manejo da madeira uma forma de sustento há 15 anos como garantiu o selo
FSC® (Forest Stewardship Council®), o que comprova sua origem legal e a torna referência em manejo dentro do país e fora dele. Uma movelaria para reutilizar os galhos que sobram também foi criada.
Por meio de manejo florestal, é possível imaginar que espécies cobiçadas como o ipê, a maçaranduba, o jatobá, o cumaru, o cedro e a itaúba possam sair da Amazônia e se transformar no móvel da casa de alguém sem carregar o peso da culpa, da destruição e da ilegalidade.
Isso porque a extração predatória da madeira na Amazônia é um dos principais vetores do desmatamento da floresta, responsável por quase 20% das derrubadas registradas este ano, de acordo com dados do sistema Deter de monitoramento por satélite, do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). No primeiro trimestre de 2020, foram 1.204 quilômetros quadrados de áreas desmatadas.
Aluisio Patrocínio de Sousa, engenheiro florestal que faz parte da Coomflona (Cooperativa Mista da Flona do Tapajós), conta que a diferença entre o manejo florestal da madeira e a exploração ilegal é que o primeiro envolve regras a serem seguidas com respeito à área a ser trabalhada e a quantidade de árvores que podem ser derrubadas, tudo realizado por meio de um inventário prévio.
Já na segunda maneira não há nenhum tipo de avaliação e derruba-se o que há de melhor, deixando para trás um rastro de destruição. “É tudo no grito. Um grita para o outro: aqui tem uma árvore boa, aí vão lá e derrubam”, conta Aluisio.
Aline Tristão Bernardes, diretora-executiva do FSC Brasil, reforça que o manejo é uma alternativa importante para a exploração dos recursos naturais da Amazônia de forma não predatória. O que não exclui alguns desafios, segundo ela: “Todo produto que vem da floresta pode ser certificado, mas a madeira da floresta tropical é o mais desafiador porque é preciso escala para competir com a madeira ilegal. A madeira certificada precisa ser valorizada, pois não é fácil se manter certificado. O maior desafio que temos é desassociar manejo florestal de desmatamento.”
Uma das regras do manejo florestal é que não se pode ultrapassar o volume de 30 metros cúbicos por hectare de madeira, em ciclos de corte que vão de 25 anos a 35 anos. Os troncos só podem ser cortados se tiverem um diâmetro mínimo de 50 centímetros e é preciso deixar na mata uma proporção das árvores maduras de cada espécie, para que elas sirvam de matrizes para a regeneração da floresta.
O manejo pelos comunitários dentro da Flona do Tapajós existe desde 2005 e atualmente – depois de algumas revisões no plano – abrange uma área de 80 mil hectares, o correspondente a 15% do total da Unidade de Conservação. A certificação FSC veio em 2013, o que não gerou necessariamente mais renda aos comunitários, mas trouxe empoderamento e reconhecimento pelo trabalho realizado. Das 24 comunidades existentes na Flona, 18 fazem parte do projeto, com uma média de 130 manejadores envolvidos nas atividades, que recebem um salário mínimo por mês.
Leia a matéria completa aqui.
