“Sou paulistana, formada em Direito, com doutorado em meio ambiente na USP. Sou apaixonada por fotografia. Minha primeira câmera foi uma Nikon mecânica, eu tinha 16 anos. Trabalho com manejo florestal e certificação. Ao valorizar as boas práticas, todos ganham, a começar pela própria natureza”
Conte algo que não sei.
O Comitê Olímpico Japonês já iniciou os contatos para compra de móveis de manejo comunitário na Amazônia peruana. Serão usados nas Olimpíadas de Tóquio, em 2020. É uma mensagem importante para o mundo.
Que mensagem é essa?
Existem valores que devemos levar em conta na hora de uma decisão de consumo. A importância que ainda damos ao “ter” é mais forte do que qualquer discurso. Eu brinco que não tenho vontade de ser rica até entrar em uma casa como esta (a Casa do Saber O GLOBO, local da entrevista). Precisamos ressignificar nossa relação com o consumo.
O que a faz pensar assim?
Quando compramos uma roupa, estamos comprando autoestima e visibilidade. Nossos valores intrínsecos estão muito distantes de uma lógica racional de consumo. Ressignificar é trocar o signo, é repensar essa lógica cíclica e ter hábitos coerentes com um novo modelo de sociedade.
Qual é o papel da certificação nesse processo?
É a única forma de mantermos nossas florestas de pé. Num campo mais filosófico, a certificação aponta um problema. Quando você vê um produto certificado, entende que a maior parte da produção não é sustentável — pelo contrário, é bastante impactante. O respeito à biodiversidade deveria ser uma coisa óbvia, mas não é. Por isso, existe a certificação.
O que é, na prática, uma floresta manejada?
Floresta manejada é floresta de pé. São técnicas de uso que partem de um diagnóstico e, depois, de um planejamento. Elas nos permitem usar a floresta sem estragá-la. O manejo defende o direito das comunidades tradicionais ao uso dos recursos da floresta. As técnicas nos ajudam a preservar a floresta, suas fauna e flora.
Você diz que o uso de madeira legal ajuda a preservar a floresta. Como?
Ao valorizar uma boa prática, valorizamos todos os que ganham com ela, a começar pela própria natureza. A pior coisa que podemos fazer, diante do problema no rastreamento da madeira legal, é deixar de consumir madeira. Isso é o mesmo que entregar a floresta ao mau uso.
Quais são as brechas na legislação que permitem que madeira ilegal seja vendida legalmente?
O sistema de regulamentação é bastante organizado, mas, na prática, ainda existe muita corrupção. Outro problema é a falta de comando e controle. Quem quer explorar madeira ilegal conta com a omissão dos órgãos governamentais. Estima-se que mais de metade da madeira que sai da Amazônia seja ilegal.
Confira a matéria na íntegra no site do jornal O Globo.
