Infelizmente, se for isso, a Amazônia virará deserto, porque aviso falado ou escrito a natureza não consegue dar. Mas, à sua maneira, há muito tempo, ela vem nos dando sinais claros do seu sofrimento.
A construção civil é hoje o maior consumidor de madeira nativa do país. E apesar dos avanços na sua agenda sustentável, principalmente no que se refere à redução no consumo de água e energia, a madeira está sendo expelida da cadeia de suprimentos das construtoras por vários motivos. No entanto, o maior problema não é o seu uso, mas sim a sua origem.
Parte dos brasileiros acredita que a madeira de lei, necessariamente, vem de desmatamento. Logo, quanto menos madeira uma obra usar, menor sua contribuição para a devastação da floresta.
Infelizmente, é fato que mais da metade da madeira nativa que circula no mercado interno vem de fontes clandestinas, como madeira extraída ilegalmente de áreas de conservação, terras indígenas e da União não destinadas. Não encarar o problema não revolve. É preciso mostrar que a floresta em pé pode ter muito mais valor do que a derrubada.
O que o consumidor desconhece é que, ao colher a madeira de forma sustentável, dentro da capacidade de reposição da floresta, cria-se um incentivo para preservação. O que parece ser o fim do recurso natural é, na verdade, o mecanismo para a sua preservação! Esta ideia não é intuitiva porque a maior parte dos recursos do planeta não é renovável, isto é, usou, acabou! Mas assim colher uma goiaba não mata a goiabeira, colher três árvores no total de mais de cem por hectare uma vez a cada 30 ou 40 anos não mata a floresta.
Outro motivo que faz as construtoras pensarem duas vezes antes de usar a madeira é ter de possuir registro no Cadastro Técnico Federal (IBAMA), operar o Sistema DOF (IBAMA) ou equivalente e ter cada obra registrada como um pátio no mesmo sistema, além de outras providências burocráticas e que oferecem pouca garantia de atendimento da lei.
Relatórios produzidos recentemente mostram que uma empresa que está irregular junto ao IBAMA pode obter documentos legais no órgão estadual para comercializar e transportar toras e madeira. Para quem não atua no setor florestal é muito difícil distinguir o que é legal, de fato, e o que é o falso legal.
Muita burocracia, pouca fiscalização e brechas na legislação tornam a madeira legal muito pouco confiável. Dai a importância da certificação e da rastreabilidade.
Dar as costas à madeira certificada significa utilizar materiais não renováveis, não recicláveis ou que consomem grande quantidade de energia no seu processo produtivo. As árvores absorvem CO2 à medida que crescem e os produtos de madeira armazenam esse carbono.
Em comparação com outros materiais de construção tradicionais, como o aço, a madeira requer muito menos energia para ser produzida (nesse caso, 24 vezes menos!). E, além disso, ela também melhora o desempenho energético ao longo da vida útil de um edifício, porque tem melhor conforto térmico, por exemplo, do que o concreto. Em tempos de perda de biodiversidade e falta d´água, até o piso da sua casa faz toda a diferença.
Descartar o uso da madeira significa incentivar a substituição da floresta por pecuária ou agricultura, deixar de gerar emprego em locais com vocação florestal, fechar os olhos e achar que o cuidado da Amazônia é responsabilidade de outro. Ao sinalizar que a solução ecologicamente responsável, socialmente justa e economicamente viável é o caminho a ser trilhado, o mercado usa sua força e seus recursos para construir valor para todos. Ele deixa de ser vilão e passa a ser aliado rumo a um planeta sustentável.
Cabe aos governos melhorar o sistema DOF e criar incentivos e políticas públicas que favoreçam essas iniciativas. É preciso contar com o apoio deles no controle e comando do uso legal e sustentável das nossas florestas. Em um setor tão pulverizado como o da construção, é preciso convencer e informar toda a cadeia sobre a importância da origem da madeira: dos pequenos produtores florestais até as construtoras e consumidores finais. Se um elo não der valor à causa, rompe o processo. Esse “esforço de guerra” contra o desmatamento e degradação florestal é nosso. Somos todos responsáveis pelo fim ou conservação das nossas florestas. Não espere um bilhete.
Artigo de Carolina Graça, engenheira agrônoma e consultora do FSC Brasil.
Publicado na Folha de São Paulo / Caderno Opinião
